quinta-feira, 19 de junho de 2014

COMUNICAÇÃO REALIZADA EM DISCUSSÃO PÚBLICA DE FILMES NA UCDB SOBRE O FILME: "O PALHAÇO"

O PALHAÇO[1]
Dulce Regina dos Santos Pedrossian

Em primeiro lugar, boa noite a todos(as). É com imensa satisfação que estou aqui representando o grupo que faz parte do Projeto de Extensão “Filosofia em cena”, e minha fala hoje já traz elementos de contribuições de alguns componentes do grupo que estiveram comigo em outro momento assistindo ao filme “O palhaço”.  Como vocês percebem, trata-se de longa-metragem brasileiro, de 2011, produzido por Vania Catani sob a direção de Selton Mello, que também é Benjamin, protagonista principal, juntamente com seu pai, Valdemar, representado pelo ator Paulo José.
Pretendemos comentar cenas do filme que nos possibilitam sua análise. Antes de tudo, Benjamim e Valdemar constituem a dupla de palhaços com os codinomes Pangaré e Puro Sangue, e com a trupe Circo Esperança viajam por pequenas cidades brasileiras e provocam entretenimento aos expectadores. Aliás, o circo representa expectativas de instantes de alegria, de estímulo da imaginação e da fantasia, e, também, mobiliza o público e as autoridades locais, de modo que não é fortuito que quando o grupo circense adentra na pequena cidade de Santa Rita de Ibitipoca, em três carros antigos, trabalhadores de um canavial param para observá-los. Na perspectiva de uma estrutura adequada de circo, sem dúvida, necessita de algumas condições para ser montado, como o terreno precisa ser plano, não inteiramente arenoso, área para acomodar os veículos, as moradias, os banheiros, e de fácil acesso ao público.
Gostaríamos, então, de convidar vocês a embarcar, mais uma vez, no interior da comunidade circense representada nesse filme. Uma passagem expressiva, logo no começo, é quando Benjamim estava se maquiando para entrar em cena e a artista circense Lola (Giselle Mota) entra no acampamento de lona e diz: “Que calor!” e ressalta: “Você devia ter um ventilador”. O símbolo ventilador é usado em diversas partes do filme, inclusive na logomarca da produção.  E, antes dos espetáculos, devido à possibilidade ou não de uma boa audiência, habitualmente um dos componentes da trupe relata para Benjamim a quantidade de pessoas no espetáculo, o nome do prefeito e de sua mulher, e, também o nome do maluco da cidade. No primeiro espetáculo, por exemplo, têm 57 pessoas, o prefeito chama-se Romualdo, usa óculos, sua mulher tem o nome de Nancy, é cabeleireira, e o maluco da cidade chama-se Pinga. Em outro, 33 pessoas, prefeito Silas, mulher Quitéria, maluco Jerônimo, e assim vai.
A abertura do primeiro ato provoca no espectador desejo de entrar no espírito circense, de consumir, nos intervalos, paçoca, geladinho, enternecer-se com as músicas dos Irmãos Lorotta (Álamo Facó e Hossen Minussi) que são “protegidos” por uma placa com os dizeres: “Não atire nos músicos”.  Depois de um dos artistas do circo levantar peso, entram em cena os palhaços Puro Sangue e Pangaré, as pessoas acham graça do espetáculo e, também, Lola dança com uma espada nas mãos. A menina Guilhermina, interpretada por Larissa Manoela, que também faz parte do grupo, observa atentamente atrás dos bastidores. Aliás, ela sempre está assistindo os entretenimentos, na realidade é a testemunha ocular ao longo do filme; percebe que Lola guarda dinheiro escondido do Sr. Valdemar, quando o ajudava a fazer pagamentos e/ou dividir o dinheiro decorrente das apresentações aos componentes do circo; presta atenção em Benjamim, quando percebe que está preocupado; sua mãe protege-a quando sente que ela está pensativa e inclusive lhe diz da importância de orar para São Filomeno, santo protetor dos músicos, dos comediantes e dos palhaços. 
A preocupação ronda o dia a dia de Benjamin, de modo que o pai lhe pergunta: “Resolveu as coisas?”. Benjamim depara-se com artista circense que quer pintar cabelo de louro para dar “sacudidas nas coisas” e dizer que é ‘russo’; outro querendo remédio porque está com dor de cabeça; a senhora Zaira (Teuda Bara) querendo um sutiã novo, porque o dela rasgou em cena (algo que vai ser preocupação de Benjamim que pergunta à esposa do prefeito e, depois, à atriz convidada Fabiana Karla se elas tinham sutiã velho para lhe dar); os Irmãos Lorotta solicitam-lhe acerto de conta. Pensativo, Benjamim desabafa com a senhora Zaira:  “Essa correria. Espero as coisas acalmarem, daí resolvo tudo”, ao que a senhora lhe responde: “Você está precisando dormir, Benja”.
Benjamim somente tem visões de ventilador à sua frente, e, de repente, é abordado por uma das espectadoras do circo, que gostou muito do espetáculo, que se chama Ana e que trabalha em Aldo Autopeças, em Passos, caso um dia ele resolva ir lá. O prefeito também se aproxima dele e lhe pergunta a respeito de sua graça. Ele responde que anda meio sem graça, mas que o nome dele é Benjamim. Convida-o, juntamente, com o restante do grupo, para um jantar na casa dele. Lá um ventilador faz-se, de fato, presente. O prefeito pergunta a Benjamim, se seu filho, que nasceu para ser artista, podia participar de um ato no circo recitando um poema feito por ele mesmo. Mas, para surpresa de todos, durante o espetáculo, devido à falta de experiência e do nervosismo do menino, fica atrapalhado e diz que é filho do prefeito, quando indagado acerca do seu papel. A questão da identidade aparece, aliás, o tema central do filme é a busca da identidade.
Compreendemos, também, que a troca de favores está presente no filme. O prefeito com a mulher não pagam ingresso, mas convidam a comunidade circense para jantar na casa deles, bem como Nancy, cabeleireira, atende componentes do grupo no seu salão de beleza por cortesia.  Do mesmo modo, o suborno, pois, no momento que o fiscal comprova que o circo não tinha alvará de funcionamento, indaga a Benjamim se ele pode arrumar alguns ingressos; quando vão à delegacia para prestarem depoimento, o delegado Justo, que estava mais preocupado com seu gato Lincoln do que com a mulher Cleide, solicita dinheiro por conta da pretensa recompensa. Ainda, a tapeação quando o rapaz de bicicleta vende um mapa da Venezuela para orientá-los na procura da ‘Ofissina’ dos “irmãos gêmeos” Papagaio – Deto e Beto – no conserto do carro. Em um primeiro momento, chama-nos a atenção o fato de os irmãos viverem na mesma casa e não se falaram por mais de 15 anos, todavia, Oliveira (2014, p. 02), em Somos todos “palhaço” do circo que construímos, traz algo que não tínhamos percebido:
A solidão é apresentada em uma cena de comédia que pode passar despercebido, na oficina dos “irmãos gêmeos” Beto e Deco, não é difícil de ver o que o retiro fez com eles, não sabemos quem criou quem, pois perdidos na imensidão da distância e na solidão do sertão, a única saída foi criar um amigo imaginário para assim superar o isolamento ali existente.
Percebemos, também, serem os problemas de droga e de cachaça recorrentes na região. Não por acaso, os espetáculos abordam questões da existência humana, como Puro Sangue no picadeiro advertir sobre os malefícios da cachaça, dizer sobre a existência de Deus. Ainda, o filme é um bom meio para descrever os valores culturais, a exemplo do sonho que um deles tem com a cabra e que lhe provoca sofrimento dado o conflito que se estabelece, e comprovado pela compulsão à repetição do relato; a cultura asséptica no fato de Chico Mourão indagar a Benjamim se ele era seu amigo, pois alguém havia lhe dito que não cheirava bem; a questão da infidelidade mostrada no fato de um deles que fazia parte da trupe mexer com a mulher do outro no Bar do Tim. Como esclarece Horkheimer (2000, p. 119) em Eclipse da razão:
[...] se não existe outra norma além do status quo, se toda a esperança de felicidade que a razão pode oferecer é preservar o existente tal como ele é e mesmo aumentar suas pressões, o impulso mimético jamais pode ser verdadeiramente superado. Os homens retornam a esse impulso de uma forma regressiva e distorcida (GRIFO DO AUTOR).

Essa citação evidencia nossa limitação diante da realidade, conduzindo-nos a pensar sobre o nosso cotidiano, isto é, não se trata de algo fácil termos atitudes pensadas e é muito mais fácil agirmos por meio de reflexos, ainda mais quando necessitamos de esclarecimento quer vivamos em grandes centros ou em pequenas cidades.
Tendo em vista o caráter da cultura nômade, itinerante – pessoas que não têm uma habitação fixa, que vivem constantemente mudando de lugar, o que demanda pensarem no “outro lugar” –, outra passagem significativa foi quando, no trajeto para outra cidade, pararam em um Recanto com bar. Enquanto Benjamim observa Guilhermina brincando de jogar bola com os pais, Valdemar conversa com um rapaz (Jackson Antunes) que toca violão, que lhe pergunta se ele era o dono do circo. Ele disse que é bom ser dono, que tinha uma fábrica de tecido com seu pai, mas que venderam a loja para cultivarem arroz; como não entendiam disso, perderam tudo. Conclui que hoje está melhor e que “cada um deve fazer o que sabe fazer. O gato bebe leite, o rato come queijo e ele toca seu trabalho”. Depois disso, Sr. Valdemar fica pensativo e olha para o filho. Algo que não pode ser desconsiderado é que a transmissão do conhecimento de pai para filho na comunidade circense acontece e intervém na relação de trabalho que se institui.
Benjamim demonstra distração em vários momentos, ao montar o circo, não presta atenção no sentido do vento, bem como insatisfação, ao dizer ao pai quando toca acordeão e ele violão: “Pai, acho que não estou dando conta”. Decide comprar um ventilador, mas para parcelar, necessita ter RG, CIC, comprovante de residência, de modo que não pode adquirir o produto.
Em Montes Claros, a questão de “não vai enterrar o morto?” aparece. Sousa (2013), em sua dissertação de mestrado denominada Retrato de picadeiros: memórias de uma trajetória de circo na Amazônia paraense, esclarece que no Circo a verbalização do pensamento, da palavra, implica poder.  Palavras são para o indivíduo circense instrumentos de comunicação pelos quais se revela herança, identidade e escolha de vida, de modo que reconta um trecho do referido filme:
A pergunta é: Que negócio é esse de enterrar defunto?”– questiona bastante chateado o delegado Justo, interpretado por Moacyr Franco, em uma das mais recentes produções de Selton Mello, O Palhaço. “Não é defunto não  doutor. É coisa de circo. É o morto que nós fala”– diz João Lorota (Álamo Facó). “É isso doutor”– reforça Chico Lorota (Hossen Minussi) que emenda a fala explicando: “É quando a gente encontra um terreno arenoso, é suspeito, né. Aí a gente tem que cravar umas estaca pra poder prender a  lona”. “E essas estacas nós chama de mortos...”, contribui prontamente João Lorota quem conclui com cara de quem jura inocência dizendo: “é isso...” (O Palhaço, Selton Melo, 2011, apud SOUSA, 2013, p. 39).

Nesse sentido, depreendemos que, o que segura, paralisa, é a morte; o ventilador é a vida, que movimenta o que está sem circulação. Sousa (2013) acrescenta que as estacas possuem tal nome porque permanecem enterradas de modo profundo no solo onde acampa o circo. O não travamento das cordas, que junto com os moitões – roldanas de ferro com ganchos – auxiliam a montagem da estrutura do circo, provoca o desabamento da lona em caso de grande agitação ou tempestade. Por isso é que o pai de Benjamim lhe adverte por conta de sua displicência, pois, quando é perguntado se não vai enterrar o morto naquele suspeito terreno, responde que entendeu que não necessitava, de modo que Sr. Valdemar reage com indignação e solicita que seja refeito o trabalho. Os trabalhadores, ao reclamarem no Bar do Tim, a viva voz, que aquele morto tinha sido enterrado entre todos, foram mal interpretados e tiveram que prestar contas do defunto circense ao referido delegado.
Ao conversar com a personagem interpretada por Fabiana Karla enquanto os outros estavam no bar, Benjamim indagou-lhe onde ficava Passos e, ao lhe perguntar o que ele fazia, ele lhe disse que ele era Palhaço, que fazia as pessoas rirem e indaga: “mas quem vai me fazer rir?” Compreedemos ser importante tal cena, pois, mais à frente, Benjamim vai estar reunido com seu chefe (Jorge Loredo) e colegas de trabalho, todos escutando e rindo das piadas, o que lhe propicia pensar acerca de sua identidade e do seu papel no circo. Pois, como afirma Crochík (2006, p. 66), em Preconceito, indivíduo e cultura: a identidade “[...] é a síntese daquilo que se repete e daquilo que luta contra a repetição, ou daquilo que tenta não se repetir e o que luta pela repetição”. Isto é:
[...] a identidade individual é dada por elementos visíveis e invisíveis, constantes e imprevisíveis, sociais e individuais, manifestos e ocultos, universais e particulares, permanente e em mutação. Não considerar os aspectos permanentes, embora não imutáveis, é desconsiderar a memória, a experiência acumulada refletida ou não, ou seja, o que o indivíduo reconhece como próprio e particular. Ele não só é essas características, como as possui, são suas propriedades privadas e, é claro, foram produzidas ou adquiridas por doação social: não o sexo, a classe social, a cor da pele, mas as considerações e os papéis atribuídos a ele. Não considerar a possibilidade de mudança, ou aquilo que lhe é oculto, por sua vez, é julgar que o indivíduo seja incapaz de ser outra coisa, além daquilo que se espera dele (CROCHÍK, 2006, p. 66).

Portanto, existem aspectos da relação do indivíduo com a cultura e com a sociedade que fogem do nosso controle, mas por meio da experiência, do conhecimento e da reflexão, é possível mudarmos de atitudes. Daí ser explicável o duplo movimento de Banjamim, querer mudar e querer ficar.
Outra parte do filme que, no nosso entendimento, provocou compreensão logopática, isto é, afetiva e racional ao mesmo tempo, nos termos de Cabrera (2006), é quando, depois de uma apresentação, em que Pangaré não consegue devidamente atuar, seu pai, Sr. Valdemar, observa o filho ir para o acampamento. O pai está triste, pensativo, tira o nariz de palhaço e se dirige a Benjamim que está deitado e lhe diz: “Filho, na vida a gente tem que fazer o que sabe fazer. O gato bebe leite, o rato come queijo, eu sou palhaço. E você?”. Com efeito, Sr. Valdemar introjetou a experiência do personagem representado por Jackson Antunes como algo bom e, por conseguinte, sua percepção do mundo também sofreu modificações.
Não é fortuito que Benjamim decide seguir seu próprio caminho, na despedida, todos demonstram tristeza, mas não dizem nada; Guilhermina permanece, acompanhando-o com o olhar, com as duas mãos olhando no vidro do carro. Assim, nessa passagem, como em outras, percebemos o encadeamento de relações afetivas, de crises e de superações presentes na comunidade circense.  Sr. Valdemar, junto com Lola, no carro, diz a ela que vai precisar do dinheiro. Ela pergunta: “que dinheiro?”. Ela decide entregar-lhe o dinheiro que tinha retirado escondido dele, mas, antes de ela seguir seu próprio caminho, ele, com sua peculiar sensibilidade, lhe devolve o dinheiro e diz que ela vai precisar. Guilhermina observa o ato.
De carona em uma moto, Benjamim chega a Passos, dirige-se para um hotel, observa cenas como casal se beijando, homem lendo jornal, que eram cenas parecidas como as que ocorriam quando estava no circo, o que evidencia que a comunidade circense, com seu caráter itinerante, faz parte de uma cultura abrangente. Ou, o mundo fora do circo passou a ser visto por Benjamim como verdadeiramente é. Vai à procura de emprego, mas não pode se candidatar a ser atendente porque não tem RG, CPF e comprovante de residência, de modo que providencia a identidade mediante sua certidão de nascimento. Em outro momento, ele dirige-se até Aldo Autopeças e, para sua decepção, Ana, a moça que tinha conhecido em Santa Rita de Ibitipoca vai se casar com o próprio Aldo (Danton Mello), proprietário. Compra, então, o desejado ventilador. De volta ao circo, com expressão de contentamento, anda de ônibus, na carroceria de um caminhão, e ao flertar com uma garota, reconhece, mais uma vez, que o que sabe fazer mesmo é ser palhaço.
Outra cena impactante foi o momento que Puro Sangue está contracenado com a senhora Zaira, que diz: “Desgraçado, esse menino é filho seu”. Ele responde: “Que papai coisa alguma, quem tem filho grande é elefante”. Como assistimos, Benjamim aparece e diz: “O gato bebe leite, o rato come queijo e eu sou palhaço”. Puro Sangue e/ou o pai, e Pangaré e/ou o filho, tocam-se no nariz e não precisam de palavras naquele momento. Como afirma Sousa (2013, p. 175), “[...] quem bebeu água da lona nunca mais esquece!”; trata-se de um ditado comum entre os circenses para ilustrar sobre a paixão entranhada nos artistas de circo de lona que dificilmente se habituam a outra vida que não seja a do circo.
Podemos dizer que o filme emprega simbolismos, gestos, olhares, silêncios, e, por meio deles, o processo da identidade vai sendo construído e desvelado, a exemplo de Lola, ao comer maçã e ser cortejada, e passar esmalte nas unhas; Guilhermina com bonecas, vestida de princesa, com uma sombrinha; a infidelidade em mensagens subliminares como no quadro do “chifrudo” (na casa do prefeito); Benjamin, ao tentar se encontrar, diante do espelho, e a piscadela que ele deu à moça da plateia. Também, a participação de personagens como Jorge Loredo e Moacyr Franco, entre outros, e a música de “dor de cotovelo” no final.
O circo representa a separação entre a vida real e a vida fictícia, considerando os papéis como uma forma de comunicação, de criação de laços sociais. Mas, diante da própria existência, da condição humana e das experiências de seu cotidiano, como é difícil imaginar e representar – e a representação é mimesis, imitação – para uma plateia de carne e osso, tal como expressa Benjamim: “Acende a luz para ver essa gente bonita; apaga rápido”; ao mesmo tempo, como é bom sonhar e representar. Como refletimos em outro trabalho:
O novo não tem entrada - as coisas parecem repetir-se, não têm elementos novos, o que fortalece a realidade estabelecida, pois a tônica recai na mesmice diante da impotência do indivíduo frente à totalidade. O indivíduo tende, com isso, a submeter-se ao mais arcaico dos meios biológicos de subsistência - o mimetismo. É fato irrefutável que o processo de aprendizagem da criança vai desde o “impulso mimético” até a apreensão da “imitação consciente” (PEDROSSIAN, 2008, p. 43).

              Assim, podemos aproximar os conceitos de mimese e de dor, de modo que a simples repetição das cenas provavelmente não provoca contentamento nos artistas circenses.  Ainda que haja piadas no filme, a essência não está no riso, mas no humor. Como pontua Freud (1974), no escrito O humor, de 1927, o humor tem não somente algo de libertador, como também possui algo de elevação e de grandeza na medida que o ego se abdica de sofrer, de ser angustiado pelas provocações ou traumas da realidade. Do mesmo modo que o humor, para Horkheimer e Adorno (1985, p. 78), na Dialética do esclarecimento, escrito de 1947: “Se o riso é até hoje o sinal da violência, o prorrompimento de uma natureza cega e insensível, ele não deixa de conter o elemento contrário: com o riso, a natureza cega toma consciência de si mesma enquanto tal e se priva assim da violência destruidora”, e, assim, sinalizam para além do endurecimento interior e da servidão.
Outro conceito suscitado no filme é o da renovação, da esperança. Se Lola partiu para seguir outro caminho que não mais do circo, Guilhermina – a menina protegida por São Filomeno – cresceu e passou a representar a promessa, e, como pontua Adorno (1993, p. 85) em Minima moralia, escrito de 1947:
[...] a esperança - na medida em que se arranca da realidade ao negá-la - é a única forma na qual a verdade se manifesta. Sem esperança seria quase impossível pensar a ideia da verdade, e a inverdade capital é fazer passar por verdade a existência reconhecida como má, simplesmente porque ela foi reconhecida.

Não por acaso, o ventilador carregado de significados e presente em toda a trama evidencia que somos seres marcados pela falta, pelo desamparo e, ainda, contém os bons ventos da renovação. Como afirma Sousa (2013, p. 50):
Para Michel Maffesoli [em El Nomadismo: vagabundeos iniciáticos] este vento é “o espírito que sopra onde quer”, e em seu caminho atravessa fronteiras, é fecundado pelas diversas influências com as quais se cruza e fecunda por sua vez aqueles que se entregam ao dinamismo do seu impulso”, e ainda, dirá que “violento ou sussurrante, o vento é a metáfora por excelência da irrefreável circulação. Fonte de respiração e inspiração. Leva consigo os germes fecundadores”. Dando-nos em poucas palavras a garantia da renovação constante por intermédio do movimento. E - não só dela, senão também da inovação pela gestação fruto de cruzamentos, encontros e trocas; da inspiração que impulsiona novos caminhos e da vivacidade capaz de resistir a tudo o que tende a ficar intumescido. A intensa circulação que Maffesoli trata é a cultura nômade, que assim como o vento não repara em barreiras ilusórias construídas para sustentar o estável, o social-estável ou ainda o establishment. Antes (se necessário) transforma-se em tormenta que arrasta tudo a seu passo e chega a explodir impérios que são aparentemente sólidos. A cultura nômade desestabiliza. Independente de camadas sociais, obriga todos a pensar no “outro lugar”.

O caráter de ser nômade implica também mudanças, ainda que as coisas não modifiquem; como já dizemos, nos diversos lugares aonde o circo vai, há repetição de perguntas feitas que se relacionam com a autoconservação da comunidade circense, e, igualmente, as cenas já observadas por Benjamim no circo repetem-se quando ele vai embora, de sorte que isso pode ser explicado pela crítica dos frankfurtianos no mundo atual: onde quer que vamos, tudo é igual; o ventilador talvez permita o movimento, mas ele é objeto construído pelos homens e talvez os traga para o mesmo lugar, ou seja, seu movimento pode também ser ilusório.
Mas, como sinaliza Marcuse (1977, p. 39) em A dimensão estética: “A arte não pode mudar o mundo, mas pode contribuir para a mudança da consciência e impulsos dos homens e mulheres, que poderiam mudar o mundo”, isto é, possibilita uma compreensão da realidade.
Muito obrigada.

REFERÊNCIAS
ADORNO, Theodor W.  Minima moralia: reflexões a partir da vida danificada (1947). Trad. Luiz Eduardo Bicca. 2 ed. São Paulo: Ática, 1993.

CABRERA, Julio. O cinema pensa: uma introdução à filosofia através dos filmes. Trad. Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

CROCHÍK, José Leon. Preconceito, indivíduo e cultura. 3 ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006.

FREUD, Sigmund. O humor (1927). In. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p. 187-194.

HORKHEIMER, Max. e ADORNO, Theodor W.  Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos (1947). Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

HORKHEIMER, Max. Eclipse da razão (1946). São Paulo: Centauro, 2000.

MARCUSE, Herbert. A dimensão estética (1977). Trad. Maria Elisabete Costa. Revisor da tradução: João Tiago Proença. Portugal: Edições 70, 1977.

MELO, Selton. Palhaço. Duração: 90min. Brasil: Imagem Filmes, 2011.

OLIVEIRA, Sidnei. Somos todos “palhaço” do circo que construímos. O palhaço - Selton Melo. A representação da felicidade que não alcançamos. Disponível em: files.violaoliveira.com/200000864-d3da8d4d48/O%20Palhaço.pdf. Acesso em 01 junho 2014.

PEDROSSIAN, Dulce Regina dos Santos. A racionalidade tecnológica, o narcisismo e a melancolia. São Paulo: Roca, 2008.
SOUSA, María Virginia Abasto de.  Retrato de picadeiros: memórias de uma trajetória de circo na Amazônia paraense.  Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Pará, Instituto de  Ciências da Arte, Programa de Pós-graduação em Artes, 2013.







[1] Trabalho apresentado como atividade do Projeto de Extensão Filosofia em Cena/Universidade Católica Dom Bosco – UCDB, em 04.06.2014.

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